Tradução: Edda Isernhagen - 2005
George Lakey
(Em desafio a Ward Churchill, que escreveu “0 Pacifismo como Patologia.”)
Quando a violência se depara com a não-violência, qual delas vence?
A ESPADA QUE CURA
(Em desafio a Ward Churchill, que escreveu: “O Pacifismo como Patologia”)
Por George Lakey
Treinamento para Mudança
Filadélfia – USA
(NT: agora começa o texto propriamente dito)
Ward Churchill, Pacifism as Pathology: Reflections on the Role of Armed Struggle in North America
(Winnipeg, Canada: Arbeiter Ring, 1998), 176 pp.
O livro de Ward Churchill, Pacifism as Pathology, tornou-se um importante ponto de referência para muitos dos novos ativistas que fizeram manchete na “Batalha de Seattle”, em Washington, D.C., Filadélfia, Los Angeles, Praga e em outros confrontos contra as injustiças econômicas e sociais. Ward Churchill é um ativista junto ao American Indian Movement (Movimento Indígena Norte-Americano) e junto a outros grupos, é um escritor prolífico, e Professor para Estudos Étnicos, na Universidade de Colorado.
Encontrando-me na companhia desses novos ativistas, decidi escrever uma resposta ao livro de Churchill, e fui esporeado pela chance de participar em um debate público com ele, em Boulder, em fevereiro de 2001. Tivemos uma troca de idéias boa e animada; os membros da audiência comentaram sobre o valor de enxergar dois ativistas mais velhos, que mantinham reais diferenças de opinião, conversando um com o outro como aliados, alertas para o surgimento de um consenso.
Ward e eu estamos ambos procurando por fontes de poder que sejam fortes o suficiente para cortar as amarras da injustiça e da opressão, e, ao mesmo tempo, dar apoio à cura deste planeta cheio de cicatrizes, e a sua população espisoteada. Martin Luther King acreditava que a ação não-violenta é aquela “espada que cura”, portanto retirei o título deste ensaio dos escritos de King. Iniciarei com alguns pontos de corcordância entre Ward e eu, depois prosseguirei para desafiar alguns dos pontos que Ward levanta em seu livro.
(Nosso movimento precisa de uma estratégia – p. 2 do livro.)
(NT: No topo de todas as páginas, a partir de agora, aparecem figuras e citações. As citações traduzidas estão colocadas entre parênteses e a página do livro indicada.)
Onde posso CONCORDAR com Ward Churchill?
Concordamos que este mundo contém massivas injustiças e explorações, e que está numa reta final de morte em relação às necessidades do planeta. Experimentamos pessoalmente a opressão de termos crescido como membros da classe trabalhadora; o fato de ele ser indígena e de eu ser gay, trouxe para cima de nós ainda mais da dureza e da dor da opressão. Não temos ilusões sobre o capitalismo, sobre as estruturas autoritárias de cima para baixo, ou sobre o império assassino dos Estados Unidos.
Ao fazermos um balanço dos resultados dos movimentos sociais da última metade do século passado, concordo com o desapontamento de Ward, de que os movimentos declarados como sucessos pelos defensores da não-violência, não tenham sido mais abrangentes. O racismo continua forte e generalizado nos Estados Unidos, apesar dos ganhos concretos dos movimentos por direitos civis, em relação a acomodações igualitárias, direito ao voto e ação afirmativa. A indústria do poder nuclear ainda promove e vende suas fábricas mortais no Exterior, e ainda envenena as pessoas aqui mesmo, através do lixo nuclear, apesar do sucesso do movimento anti-nuclear para acabar com a construção de novas fábricas aqui.
O império dos Estados Unidos continua com suas intervenções militares no Exterior, que o tornam hoje o matador global número 1, apesar do sucesso do movimento contra a guerra no Vietnam, ao criar uma “síndrome Vietnam”, que colocou algumas restrições sobre os detentores do poder nos Estados Unidos.
Ao passo que compartilho o desapontamento de Ward de que esses movimentos e outros não conseguiram alcançar mais, posso divergir dele ao celebrar os ganhos que obtivemos. Acredito que nós ativistas crescemos mais através de uma combinação de auto-crí tica e auto-afirmação, do que apenas através de críticas feitas a nosso respeito depois dos acontecimentos.
Concordo que os pacifistas são às vezes moralistas e complacentes, pouco dispostos a abrirem-se ao genuíno debate pragmático sobre os cursos de ação, mas usando ao invés disso uma ideologia moral como escudo contra a consideração de mente aberta sobre alternativas.
(Consideremos todas as opções, da não-violência à luta armada – pág. 3 do livro).
Ward destaca que os ativistas não-violentos têm uma história de correr riscos reais e até de sacrificarem as suas vidas por mudanças sociais. Ao mesmo tempo, houve muitos protestos não-violentos que se contentaram com testemunhos polidos e detenções ritualizadas, minimizando os riscos e minimizando o impacto. Concordo com essa crítica.
Também concordo que excluir dogmaticamente a luta armada de consideração, ao invés de pesar os prós e os contras de se misturarem ambas as táticas, a violenta e a não-violenta, não contribui para a criação de estratégia. No debate em Boulder, enfatizei que a estratégia e a visão a longo termo são o de que o nosso movimento necessita, acima de tudo.
Concordo com Ward de que uma ótima maneira de se pensar sobre a luta é pragmaticamente: quais são os meios que têm as melhores chances de reduzir o sofrimento, aumentar a justiça e criar uma nova sociedade?
Este ensaio, portanto, enfoca prioritariamente na parte pragmática. Responderei aos desafios de Ward em termos de realidades práticas e obstinadas. Vou puxar briga com algumas pressuposições que ele faz sobre o terreno pragmático. Desafiarei o modo como lê a História em alguns pontos, nos termos sobre o que foram as realidades do poder. E descreverei alguns movimentos que aprenderam, de sua própria experiência pragmática, que poderiam lutar com maior sucesso através da ação direta não-violenta do que através da violência.
- NECESSITA-SE: DE UMA
ESTRATÉGIA PARA A REVOLUÇÃO VIOLENTA
NOS ESTADOS UNIDOS
Ward escreve que sua meta é revelar a verdadeira natureza do pacifismo e desafiar sua complacência moral. Diz que não pretende articular uma estratégia de luta armada para os Estados Unidos; essa é uma tarefa separada.
“Revolução violenta” e “revolução não-violenta” estão na verdade no mesmo bote, desta vez – nenhuma das duas tem uma estratégia declarada para os Estados Unidos. Existe uma enorme necessidade de se pensar, tanto entre os defensores da luta armada bem como entre os advogados da luta não-violenta.
(Não existe uma estratégia pragmática para a revolução violenta nos Estados Unidos, pág. 4 do livro)
Na última vez em que muitos ativistas nos Estados Unidos falaram seriamente sobre “revolução” – o final dos anos 60 – o escritor e ativista socialista Martin Oppenheimer encontrou—se em discussões públicas com líderes ativistas que estavam defendendo a violência, mas que não conseguiam construir uma estratégia. Para ajudá-los e ajudar a si mesmo, escreveu um livro, The Urban Guerrilla2, no qual desenvolve duas estratégias diferentes, usando a luta armada, e testou-as no livro em termos das possíveis conseqüências. Pragmaticamente, ambas as estratégias de luta armada levavam ao desastre em termos de democracia e justiça.
Para ativistas que estejam fazendo mais do que auto-expressar-se, que desejem realmente a trasformação, a precisão é tão grande quanto sempre foi, de criar uma estratégia persuasiva para a revolução na qual se utiliza da luta armada. Essa estratégia ainda não existe.
O modo como vamos atrás de desenvolver uma estratégia é influenciado por nossas pressuposições sobre como o mundo opera, portanto pode ser útil comparar pressuposições. Todavia, nenhuma quantidade de argumentação sobre pressuposições substituirá o trabalho duro de criar estratégia. Dado que muitos novos ativistas estão nas escolas e nas universidades, e a maioria está bem de vida e podem tirar o tempo para fazer este trabalho duro, estou esperançoso de que aceitem o desafio!
- O PACIFISMO REALMENTE É
AXIOMÁTICO
ENTRE OS PROGRESSISTAS?
Em seu livro, Ward argumenta que o pacifismo é a ideologia da ação política não-violenta, e que ela é axiomática entre a maioria dos progressistas na América do Norte. Se ele quer dizer que a ação não-violenta está embutida no jeito como a maioria dos progressistas elaboram suas campanhas nacionais por mudança, discordo.
Há uns anos, fui chamado para Washington, D.C., para uma conferência com uma grande coalizão progressista, que estava trabalhando numa legislação para ajudar as pessoas pobres e os trabalhadores. A campanha deles estava perdendo as forças e eles me queriam para ajudá-los a elaborar uma série de protestos não-violentos. Minha primeira pergunta para o grupo de líderes nacionais, foi: Onde está a energia rebelde na coalizão de vocês?
Seguiu-se um silêncio.
Finalmente, começaram a recitar a história de quando vários grupos militantes haviam deixado a coalizão, desiludidos. Em resumo, não restava mais nenhuma energia rebelde. “Neste caso,” disse eu, “esta vai ser uma reunião curta. Vocês não conseguem tocar para a frente uma ação direta não-violenta poderosa sem a energia rebelde. Vocês tocaram esta campanha como uma operação convencional de lobby, e não podem, no último minuto, trocar de marcha e tornarem-se um movimento de protesto não-violento!”
Este é apenas um exemplo dentre muitos. O compromisso mais amplo da maioria dos líderes progressistas na América do Norte é com métodos convencionais, tipo campanhas eleitorais, lobbying, ações judiciais, petições, cartas, relações públicas, e coisas do gênero, ao invés da ação não-violenta. Isto sempre foi verdade. Quando Martin Luther King emergiu pela primeira vez como um líder por direitos civis, os grupos estabelecidos esperavam que ele e suas táticas não-violentas desaparecessem; a confiança deles estava depositada nas ações judiciais e no lobby. Até os movimentos dos trabalhadores, nascidos da militância no século 19, hoje em dia preferem apoiar candidatos eleitorais a fazer greves.
(Mas os ativistas usam a ação não-violenta o tempo todo, em geral porque funciona muitas vezes. Pág 5 do livro)
É compreensível que Ward e eu discordemos sobre isso, porque nós usamos palavras similares, mas na verdade observamos coisas diferentes. Em seu livro, Ward utiliza “pacifismo”, “não-violência” e “revolução não-violenta” de maneira intercambiável, apesar de que essas coisas apareçam muito diversamente na prática.
A não-violência ou (como eu prefiro chamá-la), a ação não-violenta, é utilizada mais no nível da base – quando as pessoas precisam do “calor das ruas” para alcançar uma meta. Demonstrações, sit-ins, ocupações, greves, boicotes: existem muitos métodos de ação não-violenta sobre os quais podemos ler nos jornais cada dia, e as pessoas se utilizam deles porque freqüentmente funcionam melhor do que meios mais convencionais, tais como lobbying e petições. As organizações nacionais profissionais de oposição não constroem a ação direta não-violenta em seu pensamento, como eu falei, mas os ativistas da base se voltam bastante para ela, simplesmente porque com freqüência funciona, para salvar árvores ou conseguir casas para os sem-teto ou forçar uma mudança na estratégia das políticas da AIDS ou para conseguir que fabricantes de roupas parem de comprar de “sweatshops” (lugares onde as pessoas trabalham por uma ninharia ou até em escravidão).
(A não-violência não é pacifismo. A maioria das pessoas que se utilizam da ação não-violenta não são pacifistas. Pág.6)
Nos Estados Unidos, a ação não-violenta é usada mais pela classe trabalhadora e pelos pobres, mais pelas pessoas de cor do que pelos brancos, e mais por pessoas mais novas do que por mais velhas. Enquanto que o grosso da ação não-violenta nos Estados Unidos é feito pelas organizações de base comunitárias de trabalhadores, e usos importantes dela foram feitos por sindicatos, gays e lésbicas, pessoas com deficiências, ambientalistas, estudantes e outros.
“Pacifismo”, por outro lado, é uma ideologia, um sistema de crença que sustenta que é imoral machucar ou matar alguém, para conseguir o que se quer. Os pacifistas acreditam que bons fins não podem justificar matanças. Igualmente, seu entendimento de causa e efeito é de que bons fins crescem de bons meios, assim como um bom bolo cresce de bons ingredientes. Acreditam que tanto a moralidade quanto o bom senso requerem que “vivamos as mudanças que queremos ver”. Provavelmente os pacifistas mais conhecidos do povo dos Estados Unidos são Martin Luther King,Jr., Cesar Chavez, que fundou e liderou a United Farmworkers, e Mohandas K. Gandhi.
Uma ampla maioria daqueles que se engajam na ação não-violenta, nos Estados Unidos, não são pacifistas. O Dr. King sabia muito bem que a maioria dos afro-americanos que arriscaram as suas vidas nas suas campanhas não acreditavam no pacifismo; utilizaram a ação não-violenta naquelas situações. E existem muitos pacifistas que raramente, se é que, se engajam em ação não-violenta, que raramente vão às ruas ou fazem desobediência civil. Assim sendo, misturar “pacifismo” e “não-violência”, como Ward faz, confunde mais do que esclarece.
Confundir “ação não-violenta” e “pacifismo” com “revolução não-violenta” enlameia as águas ainda mais. The Manifesto for Nonviolent Revolution (3), a declaração mais amplamente adotada desta posição, é muito mais radical do que a maioria dos que usam a ação não-violenta , ou a maioria dos pacifistas, estão dispostos a fazer. O Manifesto conclama para o fim do capitalismo corporativo, do sistema do estado-nação, e o fim da destruição do meio-ambiente. Denuncia o patriarcalismo, o racismo, e outros sistemas de opressão social. Projeta a visão de uma ordem social enormemente diferente, onde a liberdade floresce, os empreeendimentos econômicos são democráticos, e os humanos vivem em paz com o planeta. De longe mais radical do que os marxistas-leninistas, o Manifesto busca aprender das falhas da Esquerda para apontar para novas e criativas abordagens no futuro.
(A ação não-violenta não tem nada a ver com passividade. Trata-se de resistir ativamente à injustiça. Pág.7)
- Foram não-violentos os judeus assassinados no
HOLOCAUSTO?
O resultado mais extremo – e doloroso – de se confundirem as palavras, reside na descrição de Ward da experiência judaica do Holocausto. Primeiro, ele aumenta a passividade dos judeus face ao Holocausto. É importante que honremos as corajosas pessoas judias que lutaram contra o genocídio. (4) Em segundo, ele diz que os judeus que foram intimidados para ficar em silêncio, ou que estavam em negação sobre o que estava acontecendo, estavam engajados em ações não-violentas! “ A História nos fornece poucos modelos comparáveis pelos quais assessar a eficácia da oposição não-violenta contra políticas de estado, pelos menos em termos da escala e da rapidez com as quais as conseqüências baixaram sobre os passivos.” (5)
Todos dentre nós que se engajaram em ações diretas não-violentas sabem a difrença entre ação e passividade. Junte-se a qualquer discussão entre trabalhadores, que estejam decidindo se devem entrar em greve ou não, e você ouvirá as diferenças entre os ativos e os passivos. Junte-se a qualquer comunidade discutindo se devem defender-se contra um novo depósito para lixo tóxico, e você ouvirá a diferença entre ativos e passivos.
Em 1930, Gandhi estava preocupado com os rumos na Alemanha nazista, e escreveu a um líder rabi em Berlim, conclamando-o a organizar a resistência e a mobilizar quantos judeus e aliados quanto possível, contra a ameaça. Onde quer que Gandhi enxergasse passividade numa situação injusta, ele conclamava a que a resistência não-violenta tomasse o lugar da passividade. Na verdade, Gandhi era tão contra a passividade, que aconselhava que, ao vermos um mal ser cometido, e as únicas opções que conhecemos são a passividade e a violência, devemos optar pela violência! É claro que Gandhi acreditava que na vida real sempre existem mais do que duas opções, e que podemos criar ações não-violentas eficazes pelas quais optar.
(Movimentos não-violentos às vezes experimentam a não-violência. Página 8)
- SERÁ QUE O SUCESSO DA AÇÃO NÃO-VIOLENTA DE FATO DEPENDE REALMENTE DA VIOLÊNCIA AMEAÇADA PELOS OUTROS?
Ward argumenta que os sucessos da não-violência na luta indiana contra a Inglaterra, e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, foram, na realidade, dependentes da violência. Ele acredita que a Inglaterra havia-se recentemente exaurido militarmente na Segunda Guerra Mundial, e não podia manter seu domínio sobre a Índia através das armas, portanto rendeu-se. A guerra tornou a independência possível. O problema com esta argumentação é que a Inglaterra continuou a manter outras colônias, bem depois da independência indiana, em 1948. Um exemplo dramático é a supressão cruel da rebelião dos Mau-Mau em Quênia, feita pelos britânicos nos anos 50, bombardeando aldeias. A Grã-Bretanha reteve a capacidade para respostas militares de largo porte face a uma luta armada por independência, mas não podia continuar a dominação contra uma luta não-violenta por independência. Não é que a guerra tornou possível a independência indiana: a não-cooperação tornou a independência indiana possível.
No caso da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, mesmo correndo o risco de simplificar demais, eu identificaria a curva da eficácia na obtenção de metas tangíveis e concretas, desta maneira: 1955-1965, a curva sobe e sobe. Algumas das metas eram: integraçao nos ônibus (Montgomery, Freedom Rides); integração nos balcões dos bares e em outras acomodações públicas (sit-ins, stand-ins, swim-ins, etc., a campanha de Birmingham e o Civil Rigths Act de 1964; capacitar os negros a votar no “deep South” (Mississippi Summer, Selma March, o Voting Rights Act de 1965).
(Eles geralmente perdem quaisquer ganhos que tenham obtido.Pág. 9)
A curva começa a cair a partir de 1965 em termos de importantes áreas tomadas pelos movimentos de massa, se bem que durante anos, depois, houve a implementação do que foi tornado possível por ganhos anteriores, como conseguir funcionários públicos negros eleitos, até no “deep South”. A se destacar, a partir de 1965 houve levantes populares em cidades do norte, como Newark, Filadélfia, Detroit e Watts, e emergência dos Deacons of Defense e do partido Black Panther. Em 1968, até de uma legislação não-ameaçadora, como uma lei para dar fundos para o controle de ratos nos centros das cidades, ria-se abertamente no House of Representatives (Legislativo). O movimento massivo por direitos civis perdeu muito do seu poder precisamente ao tempo em que perdeu seu consenso sobre a luta não-violenta como a base para a ação de massa.
- MAS O GOVERNO NÃO PODE ESMAGAR QUALQUER MOVIMENTO NÃO-VIOLENTO QUE QUISER?
Não, a julgar pelo comportamento das ditaduras militares que foram depostas pela ação não-violenta. O ditador sérvio Slobodan Milosevic tinha um poder militar super-poderoso em 2000, e foi expulso por um movimento não-violento. O mesmo ocorreu com Marcos, o ditador das Filipinas, em 1986. O mesmo com ditaduras na Alemanha Oriental, na Hungria na Tchecoslováquia e na Polônia, em 1989. O Xá do Irã tinha um dos dez mais poderosos exércitos do mundo e uma polícia secreta cuja crueldade não perdia para ninguém. Foi deposto não-violentamente, de 1977 a 79. (6) Eu poderia ir citando adiante.
O que torna a argumentação de Ward nesse livro tão desempoderadora para os ativistas, é que ele desconta o poder do povo, que é o principal poder ao qual temos acesso! Os ativistas da base não podem concorrer com o dinheiro dos governantes, e não somos páreo para a violência governamental. Aquilo a que temos acesso potencial é o poder do povo, e deixar de lado o poder do povo é um convite ao desespero.
(Os governos podem esmagar movimentos violentos muito mais facilmente do que podem esmagar movimentos não-violentos. Pág. 10 do livro)
A suposição subjacente ao livro de Ward é a de que a violência é a mais poderosa força política no mundo. Isso é a sabedoria convencional, compartilhada pela maioria das pessoas na direita, na esquerda e pelas pessoas no meio; é tão popular quanto o antigo consenso de que Terra é chata. E é igualmente incorreta.
Os ativistas freqüentemente descobrem a fraqueza da violência através da nossa própria experiência. Lembro-me, durante um treinamento para o United Mine Workers Union (Sindicato Unido dos Trabalhadores em Mineração), eu conversava com um líder que estava recordando seus dias como adolescente, nas minas de carvão. “Tenho de dizer-lhe que prefiro os bons tempos antigos, quando uma greve significava que também podíamos arrebentar com as coisas, bater nos furadores de greve, atirar nos caminhões da companhia – você sabe, tínhamos muitas armas e sabíamos como usá-las. Mas,” ele suspirou, “essas coisas não funcionam mais. Vamos lá, venha nos ensinar a luta não-violenta!”
Chamo isso de “ação não-violenta como último recurso.”

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